Livros e leituras: obstinação em subverter-se

Essa é mais uma das minhas leituras atrasadas a quase um ano. Uma professora indicou esse texto em uma das aulas de História da América, eu lembro de ler rapidamente e de não compreender, mas não havia tempo para uma segunda leitura, vida que segue. Fazer o que? Em um dia desses, nessas super promoções online, comprei o livro e, como toda indicação de professor, furei a fila das leituras a fazer.  E lendo com calma, fazendo anotações e praticamente pintando o texto entendi. Na verdade minha cabeça explodiu, aquela sensação maravilhosa de horizontes que se expandem. E estou aqui para fazer uma indicação. LEIA!!!

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Na atual conjuntura, a situação política me  preocupa e parece que constantemente perdemos oportunidade de tornar nosso país um lugar bom para se viver. Com todas essas medidas que vem sendo tomadas, sem qualquer dialogo, por esse governo ilegítimo, me faz questionar se há um futuro para mim, para as próximas gerações e para o País como um todo. Se haverá um momento em que as pessoas perceberão que no fim das contas o poder emana do povo e se os políticos fazem tudo o que fazem é porque o povo da poder e permite que façam. Ler Thoreau foi um tapa na cara, um texto, relativamente, antigo que nos fala tanto sobre o mundo contemporâneo. Vale a pena uma leitura atenta.

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Henry David Thoreau (1817-1862), viveu apenas 44 anos, publicou apenas duas de suas obras em vida, “Week on the Concord and Merrimack Rivers” e “Walden”, é conhecido, principalmente, por sua obra póstuma “A Desobediência Civil”. Possuía licenciatura pela Universidade de Harvard e foi muito influenciado por seu mestre Ralph Waldo Emerson, autor célebre no período que com os passar dos anos foi esquecido, em quanto que seu pupilo, Thoreau, ganha destaque como autor de grandes obras até os dias de hoje, com reflexões que dizem muito mais a nós e ao nosso tempo do que, talvez, ao tempo em que viveu. Thoreau era adepto de uma vida simples ligada a natureza, ao meu ver, “A Desobediência Civil” surge como consequência de sua obstinação  em levar uma vida que se nega a compactuar com aquilo que não concorda. De fato, ele foi preso por se negar a pagar os impostos e dessa experiência que resulta no texto.

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Henry Thoreau nasceu em Concord, uma povoação do Estado de Massachusetts próximo a Boston, viveu em um contexto de agitação na história dos Estados Unidos. As questões que abalavam seu país, como a escravidão e a dominação de novos territórios para os Estados Unidos, estão presentes, também, no texto “A Desobediência Civil”. Para entender um pouco melhor sobre o momento em que viveu o autor nos EUA recorri ao meu livro “História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI” e me deparei com um  capítulo que fala justamente do período. A escravidão é uma grande questão nesse período, como bom nortista, Thoreau é um abolicionista, em vários pontos do texto seu incomodo com a escravidão vem a tona.  Se nega a reconhecer um governo que aceita, autoriza e justifica a existência da escravidão, em suas palavras”Não posso, nem por um instante, reconhecer como meu governo essa organização política que é também o governo do escravo.” (THOREUA,2012:11).  É clara, também, sua posição contrária ao envio de tropas ao México. Sendo assim o autor se nega a colaborar com o Estado que toma decisões e usa seu dinheiro, dos impostos, para manutenção de assuntos em que ele, como pessoa, não concorda. Em suas palavras, THOREAU, explica “para falar em termos práticos e me expressar como cidadão, à diferença daqueles que se dizem antigovernistas, eu não peço a imediata abolição do governo, mas um que seja melhor agora mesmo“(2012:08). Bem e não é isso que todos nós queremos? um governo melhor agora mesmo? E o que fazemos a respeito? O autor, pertinentemente, questiona se devemos abrir mão de nossa consciência em prol das leis e legisladores. Sabendo que as leis não tornam as pessoas mais justas ou bem intencionadas (THOREAU, 2012:09). O texto torna desconfortável a posição passiva que nos colocamos frente a governos e suas leis.

Agora um pouco de contextualização, porque eu faço história e é isso que gostamos de fazer. 😉

Os EUA do século XIX é dividido ideologicamente. O Sul,  agrário, escravista e senhorial e o Norte de trabalhadores livres, mas não se engane, Sul e Norte não questionavam a suposta superioridade da raça branca. Duas formas de trabalho distintas que coabitavam dentro do país e eram tema de discursos exaltados e disputas políticas ferrenhas. A identidade comum precisava ser construída e o avanço para conquista do Oeste se tornou fundamental para isso. A ideia de um povo escolhido por Deus para um destino glorioso passava a habitar a mente dos estadounidenses, somava-se as ideias imperialistas de levar progresso e civilidade para os territórios  os discursos da “democracia e liberdade”. Com a conquista dos novos territórios, a disputa política se intensificou entre Norte e Sul, em 1860, a questão central do debate era a escravidão. Abraham Lincoln possuía um discurso ambíguo e se elegeu dessa maneira como presidente. A elite sulista desejava se separar, Lincoln não aceitaria a secessão, sendo assim, tem inicio a Guerra de Secessão. Essa, por sua vez, era uma Guerra Civil que tomou o caráter de uma guerra pela liberdade. Lincoln propôs a emancipação dos escravos de forma lenta e gradual. Nos anos que se seguiram, foram promulgadas leis que prejudicavam os confederados (sulistas) e isso teve como consequência um grande numero de fugas de escravos das fazendas.

(…) cada vez que uma tropa de Norte invadia uma região confederada, um enorme contingente de negros fugia das fazendas e, dessa maneira, colaborava para o desmoronamento do sistema escravista.
Graças aos escravos e aos abolicionistas, um combate, que se iniciaria em nome de recuperação da unidade territorial do país, transformou-se numa luta pelo fim da escravidão (FERNANDES E MORAIS,2015:134).

O desfecho se da na data de 1º de janeiro de 1863 foi proclamada a Lei de Emancipação dos escravos. Era o nascimento de um território unificado, com leis comuns a todos os estados, nascido na guerra que foi justificada pela a abolição da escravidão, é como se o grande numero de baixas sofridas fosse, de certa forma, compensada pela liberdade adquirida de muitos outros. (FERNANDES E MORAIS,2015:134-6).

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A partir desse pequena e superficial contextualização do período é possível compreender as questões que permeiam o texto de Henry Thoreau e melhor compreender o seu desagrado com o Estado. O autor não era apenas alguém amotinado, sem grandes reflexões, muito pelo contrário, seu texto é reflexivo, político, inteligente e racional. Não é a toa que seu nome sobrevive até os dias de hoje. Ao meu ver, deveria ser um texto que o estudo fosse obrigatório, pois  é fundamental para entendermos qual o papel individual que temos para a construção de uma sociedade melhor.

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Você conhece um texto para me indicar sobre política? Ou um texto que fez sua cabeça explodir, assim como esse fez com a minha, para comentar? Vem dividir comigo!!

Fontes:

THOREAU, Henry David. A Desobediência Civil. tradução José Geraldo Couto. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2012.

Contexto: KARNAL, L.; MORAIS, M. V. de; FERNANDES, E.; PURDY, S.  História dos Estados Unidos: das origens ao século XXI. São Paulo: Contexto,2015. p. 123 -136.

Informações sobre o autor: http://www.antigona.pt/autores/henry-david-thoreau/

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